Scarf, Sunglasses, Suit vest
Primeiro esboço em 16 de Outubro de 2006
Peguei dois aviões esse fim de semana. Saí da cidade. Saia da cidade, ele me disse.
E lá, enquanto meus ouvidos doíam, enquanto mastigava o ar para sumir com aquela sensação semi-incômoda, eu procurei em mim algum resquício de sensibilidade. Mentira, um resquício da minha vontade, pois jamais fui algo além de submisso.
Peguei dois aviões esse fim de semana.
Comprei a passagem pela Internet mesmo, dez minutos depois que ele adormeceu. No dia seguinte lavei e passei um cachecol branco. Achei sensato ao menos me disfarçar. Andar pelo aeroporto com meus óculos escuros e um colete de alfaiataria. Posar como yuppie misterioso carregando valise de couro. Vendado pelo Armani máscara de lentes espelhadas e o sapato italiano de bico fino. Quem iria dizer que aquele Jet Set Man em seu terno risca de giz levava, junto do passaporte, um coração partido?
E benzodiazepínicos? E um plano de vingança?
E na Sala de Espera treinei meu inglês falando boarding pass, gate number one. Fiquei atento à chamada, sentei na minha poltrona, 5B. Fasten your seat belt. Sempre gostei desse “fasten” e nas imposições vocálicas que poderia enfatizar e fingir ser outra pessoa. Imitei o comissário de bordo ao falar, fasten your seat belt. Enquanto ele ministrava aquelas mímicas com a mascara de oxigênio, lançava meus olhares desafiadores, flertivos. Armei de pensamentos pornográficos para entrar na minha espiral.
Espiral, símbolo de loucura. Porta de entrada da minha fantasia, onde lá estava algo além da casca. O cerne que se refugiava no cerne de outra casca. O flerte era minha desculpa para, esta noite, ter sobre o lábio a gordura da impressão digital de uma mão que não fosse a minha. Ter no estômago saliva que não fosse minha. Ou de alguém que, depois da recompensa, não voltasse atrás com a palavra, voltasse atrás com a saliva e reclamasse reembolso.
Não sabia que deveria manter um SAC após um ano de casamento. Err.. união civil.
Foi então que o (nem tão) atraente comissário nos instruiu também em espanhol, e aí me senti desatualizado. Aquele pasajeros me sugou de volta mais forte que a entrada da espiral. Entendi, há muito ainda para se aprender. Há muito a se aprender para estar nesse lugar para onde eu fujo.
Calei-me.
Na verdade, meu recém adquirido atributo era a mudez. Silenciei apenas o ator em minha cabeça que tentava atuar em teatro vazio. Ele era desnecessário. Dois concordam.
A fantasia se mostrou ser ornamento e eu virei para janela. Concentrei nas nuvens que agora eram observadas sob o filtro da melancolia que ajustei nos meus olhos. Melancolia era sintoma da seclusão. O isolamento era a chave da minha sensibilidade, pois agora, ela mantém contato com a realidade.
Ornamentos... desenlacei o cachecol do pescoço.
Há muito a se aprender nesse lugar para onde fujo, mas ficar não posso. Saia da cidade, ele me disse antes de voltar a dormir.
E lá, enquanto meus ouvidos doíam, enquanto mastigava o ar para sumir com aquela sensação semi-incômoda, eu procurei em mim algum resquício de sensibilidade. Mentira, um resquício da minha vontade, pois jamais fui algo além de submisso.
Peguei dois aviões esse fim de semana.
Comprei a passagem pela Internet mesmo, dez minutos depois que ele adormeceu. No dia seguinte lavei e passei um cachecol branco. Achei sensato ao menos me disfarçar. Andar pelo aeroporto com meus óculos escuros e um colete de alfaiataria. Posar como yuppie misterioso carregando valise de couro. Vendado pelo Armani máscara de lentes espelhadas e o sapato italiano de bico fino. Quem iria dizer que aquele Jet Set Man em seu terno risca de giz levava, junto do passaporte, um coração partido?
E benzodiazepínicos? E um plano de vingança?
E na Sala de Espera treinei meu inglês falando boarding pass, gate number one. Fiquei atento à chamada, sentei na minha poltrona, 5B. Fasten your seat belt. Sempre gostei desse “fasten” e nas imposições vocálicas que poderia enfatizar e fingir ser outra pessoa. Imitei o comissário de bordo ao falar, fasten your seat belt. Enquanto ele ministrava aquelas mímicas com a mascara de oxigênio, lançava meus olhares desafiadores, flertivos. Armei de pensamentos pornográficos para entrar na minha espiral.
Espiral, símbolo de loucura. Porta de entrada da minha fantasia, onde lá estava algo além da casca. O cerne que se refugiava no cerne de outra casca. O flerte era minha desculpa para, esta noite, ter sobre o lábio a gordura da impressão digital de uma mão que não fosse a minha. Ter no estômago saliva que não fosse minha. Ou de alguém que, depois da recompensa, não voltasse atrás com a palavra, voltasse atrás com a saliva e reclamasse reembolso.
Não sabia que deveria manter um SAC após um ano de casamento. Err.. união civil.
Foi então que o (nem tão) atraente comissário nos instruiu também em espanhol, e aí me senti desatualizado. Aquele pasajeros me sugou de volta mais forte que a entrada da espiral. Entendi, há muito ainda para se aprender. Há muito a se aprender para estar nesse lugar para onde eu fujo.
Calei-me.
Na verdade, meu recém adquirido atributo era a mudez. Silenciei apenas o ator em minha cabeça que tentava atuar em teatro vazio. Ele era desnecessário. Dois concordam.
A fantasia se mostrou ser ornamento e eu virei para janela. Concentrei nas nuvens que agora eram observadas sob o filtro da melancolia que ajustei nos meus olhos. Melancolia era sintoma da seclusão. O isolamento era a chave da minha sensibilidade, pois agora, ela mantém contato com a realidade.
Ornamentos... desenlacei o cachecol do pescoço.
Há muito a se aprender nesse lugar para onde fujo, mas ficar não posso. Saia da cidade, ele me disse antes de voltar a dormir.


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