2 de ago. de 2006

Sansão às Avessas

primeiro de agosto de dois mil e seis, três e meia da manhã:

Foi nossa última conversa, uma despedida. Sim, com diversos planos para um futuro. Um futuro próximo inclusive. A opinião dele é otimista.

A minha não.
Nem digo que estou pessimista, mas acredito que a visão otimista dele jamais será minha visão otimista. Um conflito de interesses, simplesmente.
“vai tudo melhorar, e quem sabe, pela saudade e pela perda, eu possa finalmente ser esse homem amadurecido que você quer que eu seja para você. Você sabe que eu vou voltar, e nesse tempo eu vou tentar quebrar todas essa barreiras que ainda tenho contigo.”
De qualquer forma foi uma despedida. Nunca ele fora tão romântico e carinhoso como foi nesse dia, nem eu.

Mas fazer o que? Ele já até está com outro. Meu medo era justamente este: nesse tempo de liberdade tudo pode acontecer. TUDO. Inclusive ambos percebermos que vivemos muito bem (ou até melhor) um sem o outro. E daí o que teremos? O que construímos?

E querendo acreditar nesse tempo e ao mesmo tempo não acreditando, já sofrendo por antecipação, deitei em minha cama. Sempre gostei de sentir cabelos no rosto e no pescoço e já não os cortava desde novembro. Estava deixando crescer para fazer meus dreads brancos com pseudomoicano e topete para o meio do ano que vem. Mas o peso da historia estava todo nele. Sentia impregnado em cada fio de cabelo o cheiro daquelas dores e doces torturas de viver ao lado dele. É agridoce. Além do que todo mundo me enchia o saco, pedia para cortar. Pensei: não acredito que vou ceder. Sim, vou cortar o cabelo. Eu preciso.

E prometemos um recomeço, não?

Levantei da cama, peguei a tesoura e meu pouco usado barbeador e tranquei-me no banheiro.

Olhei no espelho: this is the last time.

E cortei tudo, raspei tudo. Só deixei a barba e as sobrancelhas. Sai do banheiro duas horas depois, às 5h30 e fui dormir.

Um visual novo, cujo significado vai bem além da pura vaidade. isso me garantiu um tempo a frente, uma ideia que o fim ainda está longe. é até uma enganação para minha índole suicída. E uma promessa, na verdade várias.

Promessas que tudo vai mudar, que eu vou mudar.
Que vou perder peso e ganhar músculos.
Que vou me dedicar ao Italiano e ao Francês.
Que vou ser um ótimo funcionário no trabalho.
Que vou ler todos os livros que ainda não terminei. Inclusive os meus guias de arte e de viagem, e os livros da faculdade.
Que vou juntar uma grana legal.
Que vou colocar em prática minhas idéias artísticas, aproveitar minha câmera filmadora. E me consolidar como vídeo artista que hei de um dia ser.
Que vou hibernar, isolar do mundo de aparências lá fora.
Que não desejo mal a essas experiências dele, pois já sabia que, ao pedir um tempo, ele iria aprontar, iria ficar com vários, transar com vários. E que já que é possível que ele engate um namoro nesse ínterim (atrapalhando nosso planos pro futuro ou não) jamais serei mesquinho e jamais sabotarei a vida dele pondo minhas frustrações e desejos à frente da felicidade dele. Ou me envolverei ao ponto de me tornar desculpa para a fraqueza moral de alguém, como foi com o namorado anterior dele.
Que não vou perder minha identidade. Vou me divertir só, como já estou fazendo e não vou me pressionar para ser alguém que jamais fui.
Que já acredito que minha auto-estima depende só de mim, e que o orgulho que ele tanto gosta de ver ainda está lá, um homem narcisista, cínico e arrogante que ele sempre gostou de ver, mas que é ainda por cima um cara legal e o único. Pois ele está certo quando estava chorando no meu carro e disse: ... mas eu nunca vou conhecer um outro Felipe, alguém como você. Você próprio me disse que era único. E você é."
Que, como já odeio agostos, não o procuro tão cedo. No mês de agosto eu não existo para ele. Não atendo telefone, SMS, email, nem a porta de casa. Depois de 7 de setembro, quem sabe?
E o mais interessante, um exercício de paciência e disciplina (para um homem ainda por cima): sem sexo. Celibato total. Não vou procurar conforto em outra pessoa. Quero me restaurar dependendo apenas e exclusivamente de mim. Não vale nem masturbar-se, videozinhos pornôs, beijinho inocentes no Beirute. Nananina não. Nada.

O resto vem naturalmente.

E nos vemos daqui um mês, quando a sombra macabra de Agosto se afastar. E quem sabe eu já seja um novo homem? Por bem ou por mal, já sou um homem com um novo corte de cabelo.

Ao contrário de Sansão, que perdeu as forças quando teve seus cabelos cortados, eu, sendo minha própria Dalila, restaurei minhas forças ao desapegar dos meus cabelos.
A Negative of Samson.

Nenhum comentário: